"Todos os indivíduos trazem dentro de si todo o potencial do conhecimento", falou Sócrates. E repetiu meu professor de filosofia.
As palavras dele eram bem animadoras: nasceríamos prontos para "aflorar", para olhar o mundo e estudá-lo, perceber e aprender, transformar esse potencial em poder. Apesar disso, foi a palavra "potencial" que realmente me chamou atenção.
A minha vida e a dos meus conhecidos da mesma faixa etária se resume a isso: potencial. Somos novos, e logo escolheremos uma carreira. Escolher é o mesmo que optar por desenvolver certo potencial, não é? "E os que eu não desenvolvo? Mas e os outros?", imaginei... Foi só aí que liguei a frase sobre o potencial com a vida. A própria
vida se resume ao potencial.
Por exemplo... Sábado passado, fui a um concerto de uma orquestra de adolescentes de certa igreja, que estavam visitando São Lourenço do Sul. Eu os vi tocando (muito bem, por sinal) e não pude deixar de notar, nos agradecimentos da maestra, a palavra, novamente:
- É preciso desenvolver o
potencial artístico dos jovens.
Enquanto escutava, eu imaginava como a vida dos músicos teria sido diferente se eles nunca tivessem aprendido a tocar; se o potencial tivesse ficado por isso mesmo. Aliás, quantas pessoas devem deixar seus potenciais de lado, quando poderiam encantar outros com a música (como a orquestra), curar doenças, ajudar as pessoas, mudar o planeta.
A minha conclusão foi instantânea e muito simples: desenvolver potenciais é o
objetivo da vida. Na hora, fiquei um pouco chocada com a conclusão, uma sensação estranha de certeza.
O choque veio justamente pela simplicidade da ideia: vivemos para nos aprimorar, nos melhorar e conhecer o mundo em maior profundidade. E para melhorar o próprio planeta, enquanto tentamos entendê-lo. Para nos animar ainda mais, Sócrates completou com a célebre frase: "Quanto mais sei, só sei que nada sei". Não há fim para a busca. Sempre há novas possibilidades, novos desafios, novas experiências.
As pessoas mais tristes, imagino, são as que perderam seus objetivos, aquelas que acham que não há mais nada para ver, comer, beber, experimentar, emocionar, perceber.
"É a estagnação que mata", já diziam os velhos. Só agora compreendo o que queriam dizer.
...
"...porque embora quem quase morre está vivo,
quem quase vive já morreu."
Luís Fernando Veríssimo (trecho do poema "O Quase")